Blog Militaria e História

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Este é o seu novo espaço de informação e cultura na internet. O Blog Militaria e História, em parceria com o site Front Antiguidades Militares, deseja oferecer a você informação de qualidade e  discussões de alto nível não apenas sobre o colecionismo, mas também sobre a história dos grandes conflitos mundiais.

Os textos aqui publicados serão inéditos e divididos em cinco categorias: História, Livros de História, Medalhas, Uniformes e Conservação. Cada categoria irá conter textos com importantes informações relacionadas ao assunto, oferecendo ao colecionador brasileiro e aos amantes da História militar novas perspectivas de conhecimento.

Este Blog irá ainda congregar os textos da Área do Colecionador do site Front Antiguidades Militares e os textos já publicados no blog Memórias do Front.

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Boa Leitura!

 

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ALIANÇA BRASIL ESTADOS UNIDOS – FRANK D. MCCANN

MCCANN, Frank D. A Aliança Brasil Estados Unidos (1937-1945). Rio de Janeiro: BIBLIEX, 1995.

Capa do livro

Leitura imprescindível para aqueles que desejam se aprofundar não apenas na História do Brasil no período pré e durante a II Guerra Mundial, mas também a todos que desejam compreender de forma mais clara o jogo político efetuado pelo governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo (1937-1945). O autor, Frank D. McCann é professor da Universidade de New Hampishire, EUA. Desenvolve desde a década de 70 pesquisas sobre o Brasil, quando recebeu quatro bolsas consecutivas da Fundação Fullbright. Publicou seu primeiro livro sobre o Brasil ainda em inglês. Suas principais obras em português são publicadas a partir da década de 80 em forma de artigos. Em 1982 publica A Nação Armada: Ensaios sobre a História do Exército Brasileiro e em 1995 a Biblioteca do Exército publica A Aliança Brasil Estados Unidos. Seu mais novo trabalho é Soldados da Pátria publicado pela Companhia das Letras em 2007.

O livro A Aliança Brasil – Estados Unidos possui quinze capítulos que abordam o período compreendido entre 1937 e 1945. O objetivo do autor é apresentar um panorama da política internacional brasileira neste período, sobretudo as relações do governo Getúlio Vargas  com a Alemanha e com os Estados Unidos.  Os capítulos iniciais buscam contextualizar, num primeiro momento, o período. O autor parte do golpe do Estado Novo, efetuado pelo governo Vargas em novembro de 1937, e constrói um panorama coeso do Brasil dos anos 1930 no âmbito social e econômico. Em seguida, o autor analisa a trajetória de Oswaldo Aranha, Embaixador do Brasil nos EUA e em seguida ministro das Relações Exteriores do governo Vargas, que desempenhou importante papel no período para a consolidação das relações entre o Brasil e os EUA na década de 1940. Seu fascínio pelos EUA era visível. Em março de 1938 Getúlio o convence a ser Ministro das Relações Exteriores. Aranha fazia era o meio termo entre Vargas e as ideias autoritárias de Francisco Campos. Simbolizava ainda um forte vínculo democrático com o Estado Novo devido as suas crenças. A manutenção de Aranha no governo foi, para McCann, uma alternativa sábia em relação à política exterior do Brasil com os EUA e a manutenção de sua amizade.

No final dos anos 30 o aumento da atividade alemã no Brasil e na América Latina causou preocupação dos EUA. Com isto a seção latino americana do Departamento de Estado foi reformada e uma maior aproximação com o governo brasileiro teria inicio. No final de 38, sob supervisão de Cordell Hull a Divisão das Republicas Americanas contava com 14 oficiais que pesquisavam sobre os países e suas necessidades. Além disso, cria-se uma divisão de assuntos culturais para facilitar a troca intelectual entre os países. O estreitamento de relações passou também ao campo militar: mesmo sendo o exército americano um exército que não inspirava respeito na América Latina, o governo americano passou a considerar o envio de missões militares ao estrangeiro bem como a possibilidade de venda de armamento. Ao Brasil interessava principalmente a questão do armamento.

A cooperação militar, no entanto, sofreria sérios entraves. A legislação americana era restritiva quanto a este tipo de negociação e a indústria era incapaz de oferecer preços competitivos e condições para o governo brasileiro. Por conta disso, apenas em 42 as conversações terão mais efeito. Por outro lado, o Brasil se virava por conta própria: o governo havia planejado um programa de rearmamento de cinco anos com investimento de 100 milhões de dólares e buscou fornecedores na Europa, sobretudo na Alemanha nazista.

O governo americano, a partir de 1939, inicia um esforço concentrado para manter a supremacia do comércio com o Brasil. Para os americanos e, em parte, para o governo alemão, o comercio era forma mais eficaz de se disseminar a influencia nazista no Brasil e na América Latina. A partir de 1935 o Brasil passou a fazer sucessivos acordos informais de comércio com a Alemanha. O comércio já não se restringia apenas ao café ou o algodão: o cacau, a madeira, a manteiga e a lã eram produtos adquiridos pelos alemães também. Com a ampliação deste comércio, Vargas objetivava também a criação de novos grupos de poder no país. Era uma estratégia nacionalista para proteger o Brasil das influencias políticas tanto da Alemanha quanto do Brasil.  Além do mais, a Alemanha oferecia uma oportunidade de expansão das exportações bem como a possibilidade de comprar produtos acabados sem gastar divisas.

A Guerra abriu uma nova perspectiva às relações exteriores do Brasil. O comércio com o Reich tendia a declinar, principalmente por conta do bloqueio britânico imposto a Alemanha. Por outro lado, o Brasil enfrentava um novo problema: as forças armadas eram fortes o bastante para manter Vargas no poder; mas não o eram para defender o país. Durante o ano de 1940 o Brasil tentou barganhar junto aos EUA e a Alemanha apoio para seus projetos de modernização. Durante a primeira metade de 1940 os esforços de Vargas se concentraram no desenvolvimento econômico do país, na cooperação interamericana e na neutralidade perante a guerra na Europa.  Os militares continuavam com seus olhos voltados à Europa. Entre março e abril encomendaram equipamentos da Itália. Vargas, em uma série de discursos, apregoava a neutralidade brasileira frente ao conflito. Intimamente, todos no governo acreditavam em uma vitória rápida da Alemanha e em entendimentos entre os beligerantes e a Grã-Bretanha a fim de iniciar a paz.

Em julho de 1940 o governo brasileiro consegue a liberação de um empréstimo no valor de 10 milhões de dólares para o inicio das obras de construção de Volta Redonda. O dinheiro foi conseguido graças a viagem de Guilherme Guinle aos EUA. Os americanos aceitaram cooperar com o Brasil: Volta Redonda seria exclusivamente nacional, mas seus recursos seriam em parte americanos em parte brasileiros. OS americanos também cooperariam com técnicos e a logística necessária. O acordo foi recebido com satisfação no Brasil. Traduzia o real significado da amizade entre Brasil e EUA. Com os problemas desencadeados pela guerra, a usina só foi entregue em 1946.

Este acordo também ajudou nas conversações militares. Os americanos mantinham ainda alta prioridade em relação ao saliente nordestino. Em julho os planos de guerra americanos previam que se a Inglaterra fosse derrotada as forças alemãs viriam através da África em direção ao Brasil. Na verdade estes planos nunca existiram, mas os chefes militares americanos agiam como se a invasão fosse eminente. Novos planos em 1940 para o rearmamento do Brasil são sugeridos, sem se chegar a um consenso. A farta colaboração só viria dois anos depois, a partir de 42. Até lá as relações militares seriam mantidas com desconfiança por parte dos militares brasileiros.

Por outro lado, os EUA conduziam uma maciça propaganda no Brasil através do Bureau de relações Interamericanas administrado por Rockfeller. O Bureau era responsável pela troca de informações entre o Brasil e os EUA. Embora a diplomacia entre os países datasse do século XIX, um não conhecia nada do outro. O Bureau fiara responsável então por aumentar os vínculos de conhecimento entre os dois países. Os americanos achavam que no Brasil se falava espanhol e confundiam sua capital com Buenos Aires. Os brasileiros, por sua vez, nada conheciam do American Way of Life e traduzir em princípios este estilo de vida foi uma das funções do Bureau. O objetivo era ‘americanizar’ o Brasil para que a opinião pública não se opusesse aos seus planos em relação ao saliente nordestino.

Com o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, os EUA insistem que todos os países americanos rompam suas relações diplomáticas com a Alemanha. As pressões americanas surtiram efeito e o Brasil, juntamente com a maioria dos países latino americanos, rompeu as relações com a Alemanha. Cobrando as promessas americanas por este ato, o governo brasileiro conseguiu um acordo de arrendamento de equipamento militar no valor de 200 milhões de dólares além de empréstimos no valor superior a 100 milhões de dólares para os projetos de desenvolvimento brasileiro.

Os capítulos finais do livro giram em torno do envio da Força Expedicionária Brasileira para a Europa. McCann inicia o capítulo afirmando que a decisão brasileira de ir à guerra teve desdobramentos de longo alcance. Por um lado, forçou os países vizinhos a optar entre a neutralidade e a beligerância; por outro, aproximou ainda mais a estreita aliança com os EUA. No entanto, mesmo antes de entrar na guerra, o Brasil já havia contribuído juntos aos americanos ao ceder as bases para a Marinha, a construção dos aeroportos e a passagem de aviões sobre território brasileiro. A Conclusão é que se a Alemanha não tivesse atacado o Brasil, dificilmente o governo sairia da sua posição de neutralidade.

Mas quando começou a pressão pelo envio de tropas? Os militares brasileiros haviam requerido o fornecimento de armas aos EUA desde 1938. Sem respostas positivas e efetivas em 42, chegaram a conclusão de que apenas o envolvimento direto asseguraria o fornecimento de armas pelos EUA. A partir de outubro de 42 já se podia ouvir oficiais brasileiros conversando sobre o envio de uma força. Em dezembro aumentava ainda a pressão e a imprensa tomou parte na campanha. Quando do encontro com Roosevelt em Natal, Vargas sabia exatamente o que pedir. E sua satisfação ao termino evidenciava o apoio americano aos seus planos. A conferencia de Natal fez Washington visualizar que, se outra nação americana participasse da guerra, a posição dos EUA como líder e porta voz do continente aumentaria no pós-guerra.

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OS SOLDADOS JUDEUS DE HITLER – Bryan Mark Rigg

RIGG, Mark Bryan. Os Soldados Judeus de Hitler. Rio de Janeiro: Imago, 2003. 457p.

Este livro fornece aos leitores uma nova maneira de ver uma das questões mais importantes da história do Terceiro Reich, a identidade judaica. Mais especificamente estuda o fenômeno dos judeus e de homens de parcial ascendência judaica, chamados Mischlinge”.

Depois de séculos de casamentos mistos dos judeus na sociedade alemã, classificar quem era judeu puro, meio judeu, ou um quarto judeu, tornou-se um trabalho difícil, em face da aplicação das leis raciais que se tornaram mais agressivas a partir da ascensão de Hitler ao poder.

A despeito de milhões de judeus terem sido exterminados em decorrência do Holocausto, dezenas de milhares de homens de ascendência judaica serviram na Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que o número deles chegou a 150 mil homens, incluindo veteranos de guerra condecorados e oficiais de alta patente, até mesmo generais e almirantes.

Embora fosse tentada, a investigação e afastamento dos “Mischlinge” dentre os militares foi muito prejudicada pela inconsistência das legislações nazistas em torno do assunto. Por outro lado, era muito complicado e difícil determinar quem era meio judeu, já que as pesquisas em árvores genealógicas mostravam-se imprecisas. O Dr. Achim Gercke, perito em pesquisa racial, disse em 1935 que “para determinar o sangue judeu de todo o povo Alemão, seria preciso mil pesquisadores de famílias trabalhando durante tinta anos”.

Muitos “Mischlinge” não se consideravam judeus, ou por desconhecimento de suas raízes ou por se comportarem como dedicados patriotas. Eles se comportavam do mesmo modo que os arianos: por lealdade a Alemanha, crença no governo nazista, motivos oportunistas ou, o mais comum, por uma mistura disto tudo.

Um exemplo disto foi o que disse o primeiro-tenente Heinz Dieckman, 75 por cento judeu: “naquele tempo eu era um nazistinha… Estava fascinado por Hitler. Achava-o maravilhoso… Hoje nós vemos apenas o demônio, mas naquele tempo não o víamos assim”. Outro exemplo é Peter Schliesser. Embora fosse expulso da escola, chamado de judeu e espancado, acreditava nos ideais de Hitler e se sentia impressionado pelo que o Fuhrer fizera “tirando a Alemanha da recessão e praticamente eliminado a pobreza”. Ironicamente, no entanto, Hitler desempenhou papel direto na permissão para que muitos meio e um-quarto judeus servissem na Wehrmacht, enquanto milhares de outros eram exterminados.

As causas que levaram Hitler a conceder isenções a “Mischlinge” são controversas. Alguns afirmam que foram motivadas por causa de seu próprio passado judeu. Este assunto, descendência judia de Hitler, até hoje não ficou completamente provado, embora existam pronunciamentos de alguns de seus assessores mais próximos que garantem que seu avô tinha sangue judeu.

Outro ponto é que Hitler tinha a capacidade de ignorar “defeitos” em homens que ele achava que podiam servir a sua causa política. É o caso de Ernst Rohm, o chefe dos camisas pardas (SA), que era homossexual. Mesmo perseguindo os homossexuais, permitiu que Ernst Rohm permanecesse em seu cargo até o dia que não mais precisou dele, já que os SA começaram a fazer concorrência à recém criada SS, eliminando-o no evento que ficou conhecido como Nacht der langen Messer (Noite das Facas Longas). É o caso, também, de Reinhard Heydrich, a “Fera Louca”, chefe do Departamento Central de Segurança do Reich e um dos arquitetos da Solução Final do problema judeu. O possível “defeito” de Heydrich era a sua ancestralidade judaica.

Hitler também concedeu isenções por necessidade militar. Dois exemplos são o Marechal-de-campo Erhard Milch e o General Helmut Wilberg. Hitler precisava destes homens, de comprovada capacidade militar, para desenvolver a Luftwaffe. Milch tornou-se um dos homens mais poderosos na Luftwaffe e no Terceiro Reich. Igualmente, Wilberg desenvolveu um importante trabalho em terra para o conceito operacional da Luftwaffe, posteriormente conhecido como Blitzkrieg. Durante a Primeira Guerra Mundial, Wilberg foi o primeiro comandante aéreo alemão a organizar e empregar grupos aéreos inteiros em papel de ataque ao solo. Foi um dos altos oficiais no Luftstreitkräfte – serviço aéreo na Primeira Guerra Mundial – e comandou mais de setecentos aviões na grande campanha de Flandres em 1917.

Hitler também permitiu que “Mischlinge” servissem porque tinham um protetor ou parente importante. Raeder e Goring são exemplos de lideres que usaram de sua influência para conseguirem isenções diante de Hitler. Encontra-se a assinatura de Hitler em muitas dessas ordens de isenção.

Os membros da SS e do partido, no entanto, tinham de provar a sua ancestralidade ariana pura recuando até 1800 para permanecer em seus cargos. Os oficiais tinham que remontar sua ancestralidade até 1750.

Mas quando a guerra começou a se arrastar, a política nazista levou de roldão a lógica militar, mesmo diante das crescentes necessidades de material humano da Wehrmacht, e foi tapando brechas na lei, tornando praticamente impossível a esses soldados escapar do destino de milhares de outras vítimas do Terceiro Reich. Como disse Eichmann durante seu julgamento em Jerusalém: “os  “Mischlinge” eram protegidos por uma floresta de dificuldades por causa de seus parentes não judeus e  porque não havia um meio eficaz de esterilização”.

Hitler disse, várias vezes, que trataria dos meios judeus depois da guerra. Em 1942 Hitler teria dito que estava cansado dos problemas com os “Mischlinge” e que trataria deles depois da guerra. Muitos “Mischlinge”, hoje, não têm dúvidas sobre o seu destino caso a Alemanha ganhasse a guerra e Hitler continuasse o seu governo.

Hitler condenava a brandura na questão judaica e rejeitava os que tratavam com tolerância qualquer um de ascendência judaica. Mas praticou o que em última análise condenava, e muitas vezes abriu exceções a sua própria ideologia. Apesar disto, a situação dos “Mischlinge” estava à beira de se tornar um pesadelo. Vendo-se o currículo do Fuhrer  está claro, agora, aonde ele ia chegar com relação aos “Mischlinge “.

Por final o autor demonstra como eram imperfeitas, desonestas, corruptas, falidas e trágicas as teorias e políticas raciais de Hitler e dos nazistas.

Nota: Significado da palavra Mischling

A palavra Mischling significa mestiço, vira-lata ou híbrido. Primeiramente foi aplicada  a pessoas com um dos pais negros e outro branco nas colônias alemãs na África. Na década de 1920, quando soldados franceses tinham filhos com mulheres alemãs, estes eram chamados de Mischling. Em 1935 as Leis de Nuremberg criaram duas novas categorias “raciais” o meio judeu (Mischling de judeu em primeiro grau) e um-quarto judeu (Mischling de judeu em segundo grau). O meio judeu tinha dois avós judeus e o um-quarto judeu tinha um.

Singular: Mischling

Plural: Mischlinge

 

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SUITE FRANCESA – Irène Némirovsky

NEMIROVSKY, Irène. Suíte Francesa. Companhia das Letras, 2006, 536p.

Escrito entre 1941-1942, o livro retrata o pesadelo que foi o êxodo da população francesa diante da eminente ocupação alemã da França durante a Segunda Guerra Mundial. Em maio e junho de 1940, às vésperas da derrota militar da França e da assinatura do armistício com a Alemanha, milhares de franceses fugiram pelas estradas, rumo ao sul, na esperança de escaparem da ocupação nazista. Calcula-se que durante a debandada cerca de 10 milhões de franceses abandonaram suas casas para se refugiar na chamada Zona Livre, zona não ocupada pelos alemães.

Irène descreve, com maestria, os burgueses com suas pratarias, diretores de bancos com seus arquivos, pequenos funcionários, famílias de camponeses, todos tentando fugir. Narra à história dos Péricand, gente conservadora que desconfiava do governo da República. Do escritor Gabriel Corte que trabalhava no terraço, entre o bosque verdejante e escuro e o por do sol dourado e verde que se extinguia no Sena. Dos Michaud, ambos, marido e mulher, bancários que trabalhavam no mesmo estabelecimento. De Charles Langelet, solteirão, que só amava o seu apartamento, onde um casal o servia, suas porcelanas e tapetes. Narra também a vida de um povoado já invadido pelos oficiais nazistas, e o drama dos habitantes que têm que conviver com o inimigo. Não menos interessante é a própria história de Némirovsky.

Irène, uma judia russa, vivia em Paris por ocasião da ocupação nazista. Em julho de 1942 guardas franceses batem a sua porta e a levam para o campo de concentração de Pithiviers, no Loire. No dia seguinte é deportada para Auschwitz. Em 17 de agosto é assassinada na câmara de gás em Birkenau. Seu marido Michel escreve ao Marechal Pétain pedindo para ficar no lugar de Irène em um campo de trabalho, já que tem a saúde frágil. A resposta do governo de Vichy é a sua prisão, sendo morto em 6 de novembro de 1942 nas câmaras de gás, em Auschwitz. As duas filhas do casal são perseguidas. Ao fugirem com a tutora, levaram uma mala com fotos, papéis da família e o último manuscrito de Irène escrito em letras minúsculas para economizar tinta e papel. Neste manuscrito Irene tinha traçado um retrato implacável da França covarde, vencida e ocupada.

No final da guerra, quando começaram a chegar os sobreviventes dos campos nazistas, lá estavam Denise e Élisabeth a espera de seus pais que nunca voltaram. Denise salvara o caderno com o precioso manuscrito, mas não se atrevia a abri-lo só o fazendo muitos anos depois. Os manuscritos de Suíte Francesa estiveram guardados por 62 anos, quando foram publicados em 2004. Assim veio ao mundo SUÍTE FRANCESA.

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FIM DE JOGO – David Sttaford

STTAFORD, David. Fim de Jogo, 1945. Objetiva, 2012, 704p.

O autor narra a história da derrota do nazismo e do fascismo, e de homens e mulheres que viveram na Europa neste período. Narra os principais eventos que levaram o fim da Segunda Guerra Mundial, como as mortes de Hitler e Mussolini e a libertação de prisioneiros dos campos de Buchenwald e Dachau. Neste livro o autor narra os horrores das cidades destruídas, dos prisioneiros que não tem para onde ir, da fome que se alastra pela Europa, das famílias despedaçadas, a impiedade dos russos com os alemães e prisioneiros, as doenças e a abertura dos campos de concentração e extermínio, mostrando ao mundo toda a loucura guerra. Trata sobre Nuremberg, a sorte de alguns líderes nazistas, Petain e outros.

Ao longo do livro conhecemos a história de pessoas como Roberts Ellis, um jovem soldado americano que lutando na Itália, tenta manter a alma intacta perante a brutalidade da batalha. Ele tinha 20 anos de idade. Recém promovido a sargento, liderava um esquadrão de metralhadoras. Ouviu a notícia do lançamento da bomba atômica em Hiroshima em 6 de agosto, pelo rádio do navio, que o levava de volta para Nova York. Somente quando ouviu a noticia da segunda bomba lançada dois dias depois sobre Nagazaki, e com a declaração de guerra da Rússia ao Japão, Ellis teve certeza que a guerra, finalmente, tinha acabado.

Robert Reid, com menos de 40 anos, um correspondente de guerra em viagem com o exército do general George Patton. Foi o primeiro correspondente britânico a chegar a Buchenwald. Ele entrou em Buchenwald no dia seguinte a sua libertação. Reid, um homem de família até a alma, achou muito difícil de suportar o que estava vendo. Em janeiro de 1946 Reid voltou a Alemanha para ver com os próprios olhos como estavam as condições de vida no país. Nada do que testemunhou lhe inspirou qualquer simpatia. A miséria do povo contrastava com os sonhos que haviam sido alimentados durante o regime de Hitler.

Reginald Roy, um soldado canadense que enfrenta a resistência nazista na costa holandesa. Ele optou por não embarcar para o Pacífico, uma vez que o serviço militar canadense além-mar era voluntário. A libertação desencadeou punições aos culpados e uma justiça grosseira apanhou muitos inocentes. As mulheres que se prostituíram para os alemães tiveram as cabeças raspadas, conduzidas em desfiles pelas ruas e agredidas por outras mulheres. Holandeses nazistas foram presos e executados sumariamente. Roy assistiu a tudo isto.

Francesca Wilson, que trabalha na Agência das Nações Unidas para Assistência a Reabilitação – UNRRA, de ajuda humanitária. Francesca tenta, desesperadamente, diminuir o sofrimento trazido pela guerra.

O capitão Bryan Samain, o jovem combatente britânico. Transformado em uma máquina humana, ele foi ensinado sobre tudo que havia para conhecer a respeito do manejo do instrumento de que precisava para o trabalho: o rifle. Aprendeu tudo sobre a submetralhadora Thompson (a Tommy), uma arma de fabricação americana feita para os comandos. Ele participou da grande travessia do Reno próximo a cidade de Wesel. A cidade tinha sido reduzida a pó pelos bombardeiros Lancaster da RAF. Não se via nada além de crateras. Um correspondente de guerra registrou: “Nada foi deixado além do entulho, sob o qual os mortos fedem. Homens, mulheres e crianças vasculham as ruínas e vêem o que podem encontrar… Wesel deixou de existir”.

Leonard Linton, pára-quedista da 82 Divisão Aerotransportada do Exercito dos Estados Unidos e estava a serviço nos arredores de Colônia. Ele ficou horrorizado quando tomou conhecimento do massacre de Malmédy, ocorrido na Batalha do Bulge. Uma unidade americana foi capturada em Malmédy. Foram todos mortos. Mais de 81 corpos foram recolhidos, com as mãos ainda amarradas as costas. Outras atrocidades da SS envolveram homens, mulheres e crianças belgas, civis assasinados a sangue frio em suas próprias casas. Linton declarou: “se somasse todos os que se diziam antinazistas, as multidões que saudaram Hitler tão entusiasticamente deviam ter sido uma miragem.” E com relação aos judeus “a julgar pelo número que os gentis alemães diziam ter ajudado, eles totalizariam uns 50 milhões.”

Fey Von Hassel, uma alemã de 26 anos, era uma prisioneira do campo de concentração de Dachau. Seu pai, Ulrich Von Hassell era um dos diplomatas mais cultos e conceituados da Alemanha. Ele não concordava com os nazistas. Talvez por isto ele se aproximou da conspiração que, em julho de 1944, tentou eliminar Hitler. O coronel  Claus Von Stauffenberg, responsável por plantar a bomba foi sumariamente executado. Em setembro de 1944 Ulrich Von Hassell foi executado. No mesmo dia do enforcamento de Ulrich, Fey, separada de seus dois filhos menores, foi presa e, posteriormente, encaminhada para Dachau. No final da guerra Fey reencontrou seus filhos e o marido, também prisioneiro.

Fred Wagner, um judeu, que fazia parte do Grupo Auxiliar de Sapadores Militares. Pelo menos 20 mil judeus alemães, de ambos os sexos, lutaram ao lado dos aliados contra o nazismo. Wagner e seus companheiros foram designados para descobrir se os nazistas haviam preparado um reduto nas montanhas austríacas, altamente fortificado, de onde iniciariam uma desesperada cartada final. Nunca foi encontrado este reduto, porque simplesmente nunca existiu.

Entre os muitos erros cometidos por Hitler, podemos citar dois de suma importância para o destino da guerra. Um estratégico e outro ideológico. O estratégico foi a invasão da Rússia sem que a Inglaterra estivesse derrotada, pois passou a lutar em duas frentes. O ideológico foi o antissemitismo, o ódio aos judeus, que culminou com o Holocausto. Ao destinar grandes quantidades de recursos, em particular em termos de transportes ferroviários, ocupar tropas da SS e privar a Alemanha de milhões de trabalhadores potencialmente produtivos, e prováveis soldados, Hitler deixou de aproveitar uma grande fonte de recursos. Entre 1939 e 1944, a força de trabalho na Alemanha encolheu de 39 milhões para 29 milhões de pessoas, uma queda de 26%. Enquanto a atividade industrial era terrivelmente prejudicada pela falta de pessoas inteligentes, bem instruídas e trabalhadoras, Hitler exterminava cerca de 6 milhões de judeus europeus.

A análise da derrota de Hitler tem a proporção de pintá-lo como um imbecil estratégico, ou como um louco. A principal razão que levou Hitler a perder a Segunda Guerra Mundial foi a mesma que o levou a deflagra-la: ser um nazista, ou seja, levado pelo totalitarismo, nacionalismo, militarismo, imperialismo, culto da personalidade, repressão violenta, antissemitismo e racismo e considerando que os alemães seriam os melhores representantes a raça ariana, superior a todas as outras.

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